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Repertório

LIDERANÇAS QUE LEEM O MUNDO

Cultura, engajamento e expectativas: as três dimensões que pedem atenção de quem lidera num mundo que muda enquanto tentamos compreendê-lo

Sonia Helena dos Santos

Sonia Helena dos Santos

Administradora, pós-graduada em Recursos Humanos pela PUC-Rio e mestre em Tecnologia Educacional pela FAAP

Jair Marcatt

Jair Marcatt

Curador da Casa Une

Existe uma diferença entre possuir uma visão ampla e simplesmente conhecer muitos assuntos. A primeira exige capacidade de relação. Um líder pode conhecer profundamente seu negócio e, ainda assim, precisar olhar para ele a partir de outro lugar.

Não se trata de transformar cada líder em especialista em tudo. Trata-se de desenvolver a capacidade de mudar de perspectiva sem perder o eixo.

A empresa como espaço de encontro: a proposta da Casa Une não é levar conhecimento de um campo para outro como quem transporta uma ferramenta pronta. É criar condições para que o encontro aconteça.

Liderar é criar condições para que as pessoas queiram contribuir Quando falamos em liderança, ainda é comum associar o líder à posição que ocupa dentro de uma organização. Mas liderança é muito mais do que autoridade formal ou posição hierárquica.

Grandes líderes acreditam no potencial humano. Entendem que liderar também significa desenvolver, capacitar, orientar e criar condições para que as pessoas utilizem o melhor de suas competências. Isso exige enxergar os profissionais de forma integral, não apenas como recursos necessários à produção, mas como parte essencial da capacidade de uma organização aprender, evoluir e gerar resultados.

Em um cenário marcado por transformações cada vez mais rápidas, três dimensões merecem atenção especial de quem exerce liderança: cultura, engajamento e expectativas.

A cultura organizacional está presente na maneira como uma empresa pensa, age, decide e estabelece suas relações. A liderança tem papel fundamental não apenas na construção dessa cultura, mas principalmente na sua sustentação. E cultura se sustenta pela coerência. Não basta falar sobre valores. É preciso demonstrá-los nas decisões, nos comportamentos e nas escolhas cotidianas, em todos os níveis da organização.

O segundo aspecto é o engajamento. Toda organização deseja profissionais comprometidos, participativos e envolvidos com seus resultados. Mas engajamento não se impõe. Engajamento se constrói. As pessoas tendem a se envolver mais quando compreendem seu papel, percebem que sua contribuição importa, são respeitadas e reconhecidas e, principalmente, encontram sentido naquilo que fazem.

E chegamos às expectativas. De um lado estão as expectativas da organização: produtividade, qualidade, crescimento, competitividade e resultados. Do outro estão as expectativas das pessoas: remuneração adequada, respeito, reconhecimento, qualidade de vida, autonomia, oportunidades de crescimento e orgulho de pertencer. Esses interesses nem sempre caminham naturalmente na mesma direção.

Talvez esteja justamente aí um dos maiores desafios da liderança contemporânea: aproximar os objetivos da organização das necessidades e aspirações das pessoas.

Por isso, cultura, engajamento e expectativas não podem ser tratados como temas isolados. Uma liderança consistente fortalece a cultura. Uma cultura coerente favorece o engajamento. E pessoas engajadas aumentam a capacidade de uma organização avançar com consistência.

Porque, no final, liderar não é simplesmente conseguir que as pessoas entreguem resultados. É criar condições para que elas queiram contribuir para esses resultados e compreendam o valor daquilo que estão construindo juntas.

O VALOR DE UMA CONVERSA QUE NÃO ESTAVA NA AGENDA

Numa sociedade que mede tudo por produtividade, preservar

O tempo aparentemente livre não é vazio. É o tempo em que o repertório encontra espaço para trabalhar.

Em uma sociedade que mede tudo por produtividade, preservar tempo para encontros, escuta e convivência pode ser uma decisão de negócio, de cultura e de futuro.

A agenda é indispensável, organiza decisões, distribui responsabilidades e dá prazo ao que precisa acontecer, mas ela raramente prevê a pergunta que ainda não sabemos fazer, nem o encontro capaz de deslocar uma ideia de lugar.

Grandes transformações não nascem apenas em reuniões formais, muitas começam numa conversa sem pauta, numa observação aparentemente lateral, no contato entre pessoas que, a princípio, não tinham motivo imediato para se sentar à mesma mesa.

É por isso que o tempo aparentemente livre pode ter tanta densidade. Ele não é vazio. É o tempo em que o repertório encontra espaço para trabalhar.

Quando a conversa encontra método As empresas mais consistentes não dependem apenas do acaso. Elas criam condições para que o inesperado tenha onde acontecer.

O repertório transforma encontro em possibilidade.

Repertório é o que permite a alguém ouvir uma observação e relacioná-la a uma decisão de marca, perceber que a pergunta de um estudante pode revelar um problema de produto ou identificar, na fala de uma empreendedora, uma necessidade ainda invisível para o mercado.

As conversas que não estavam na agenda ajudam a descobrir o que ainda não sabíamos que era possível.