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Ensaio

O QUE MERECE PERMANECER PROFUNDAMENTE HUMANO, MESMO QUANDO TUDO PUDER SER AUTOMATIZADO?

Toda invenção chega acompanhada de uma ideia sobre o lugar que ocupará em nossas vidas. Quase nunca acerta.” É a melhor dupla título e subtítulo da edição

Oforno de micro-ondas prometia abolir a cozinha. Décadas depois, está em quase todas as casas, mas não extinguiu a panela, o jantar preparado devagar nem a cozinha como lugar de encontro. Ao contrário: a cozinha migrou para o centro da casa, aberta para a sala, porque cozinhar continuou sendo algo que se faz junto. A sociedade fez com a tecnologia algo diferente do que quem a projetou havia imaginado.

Há aí uma primeira pergunta, anterior a qualquer debate sobre inteligência artificial: quem decide o destino de uma invenção? Não é o inventor, nem a empresa que a vende. É a vida social que a recebe, a adapta, a desloca e, às vezes, a recusa. Uma tecnologia é sempre assimilada por um código cultural, e código cultural é obra humana.

O Brasil é um bom lugar para observar isso. Em 2024, 92% dos usuários de internet no país enviaram mensagens instantâneas, a atividade mais realizada na rede, segundo a pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br. Não é a ferramenta que explica esse número. É uma sociedade relacional, que conversa, que faz piada, que transforma qualquer notícia em figurinha. O aplicativo é o mesmo em qualquer país. O lugar que ele ocupa, não.

Os restaurantes contam a mesma história em escala de salão. Robôs de serviço chegaram como resposta à falta de mão de obra e como substituto parcial do garçom. Em muitos lugares, viraram atração para as crianças e peça de marketing. O garçom continuou central, porque naquela interação há algo que não é apenas funcional. E o cardápio por QR code, que resolveu um problema real durante a pandemia, encontrou um limite que não estava no projeto. Pesquisa da Abrasel no segundo semestre de 2022 mostrou que, entre os estabelecimentos que não adotaram o cardápio digital, o motivo mais citado era a exigência dos próprios clientes pelo cardápio físico (40%), seguido pela percepção de que se vende mais quando o atendimento é feito pelo garçom (25%). Outros 11% chegaram a adotar e abandonaram o recurso quando as restrições da pandemia acabaram. O tema chegou ao Congresso: a Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara aprovou projeto que obriga bares e restaurantes a disponibilizar cardápio impresso, admitindo o digital desde que haja oferta simultânea.

Nada disso condena a tecnologia. Mas abre uma segunda pergunta, mais incômoda: quando a eficiência deixa de melhorar uma experiência e começa a empobrecê-la? Automatizar uma tarefa e melhorar um encontro não são a mesma coisa. Nem tudo o que pode ser automatizado será aceito como algo que deve ser.

A pergunta fica séria quando saímos do restaurante e entramos no território das decisões. Sistemas automatizados já participam da triagem de candidatos a emprego e da análise de quem recebe crédito e em que condições. Classificam, ranqueiam, excluem. A lei brasileira reconheceu o problema antes de a inteligência artificial virar assunto de capa: a LGPD assegura ao titular o direito de pedir revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado que afetem seus interesses, incluídas as que definem seu perfil de crédito ou profissional. E o Marco Legal da IA, o PL 2338/2023, aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024 e em tramitação na Câmara, lista recrutamento e classificação de crédito entre os sistemas de alto risco, com avaliação de impacto algorítmico obrigatória.

Mas o direito chega depois. Antes dele há uma questão ética e filosófica. O que é, afinal, uma decisão? Um parâmetro que separa o que passa do que não passa, ou um ato pelo qual alguém responde? Se submetermos os grandes criadores da história a um filtro binário, poucos passariam, porque o que faz um inovador é justamente não caber no padrão. A inteligência artificial recombina, com enorme competência, o que já existe. Não inventaria o jazz. Inventaria, com facilidade, a música que já está pronta.

É aqui que a inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta que responde e passa a ser uma infraestrutura que classifica e interfere na realidade. E é exatamente aqui que o humano se torna mais necessário. Não por ser infalível, mas por ser responsável. Uma sociedade precisa saber quem responde por uma decisão, quem pode contestá-la, quem interpreta o que escapou ao padrão e quem tem autoridade para dizer: neste caso, o sistema está errado. A Recomendação da UNESCO sobre a Ética da Inteligência Artificial, à qual o Brasil aderiu, parte desse princípio: a responsabilidade final não se delega à máquina.

Nos setores em que o encontro é o produto, hospitalidade, gastronomia, turismo, cultura, educação, cuidado, a tecnologia pode ser extraordinária nos bastidores: prever demanda, organizar reservas, reduzir filas, apoiar equipes, ler o que o cliente não disse. Tecnologia no processo. Humanidade no encontro.

Há, porém, uma terceira pergunta, e ela vale para todos os setores: quem olha para aquilo que escapa? Esse olhar não vem de uma segunda inteligência artificial, maior do que a primeira. Vem de pessoas. E exige delas algo que nenhuma ferramenta fornece: repertório. Uma resposta pode ser produzida em segundos. Saber se ela é suficiente, justa ou absurda exige conhecer o mundo para o qual ela responde.

Os gregos sabiam disso. O oráculo de Delfos não respondia a quem perguntava mal, e o que devolvia ainda precisava ser interpretado. Sócrates fez da pergunta o próprio motor do pensamento. A chegada de máquinas capazes de responder a tudo não torna essa tradição obsoleta. Devolve-lhe urgência. Perguntar bem, interpretar melhor e reconhecer o que ficou de fora voltam a ser as capacidades decisivas. A ausência de repertório desumaniza a interface. A presença dele mantém o pé humano.

Tecnologia pode escalar. Mas somos nós que escolhemos o que vale a pena escalar. Somos nós que interpretamos, acolhemos, priorizamos, decidimos e assumimos responsabilidade.

Progresso também será saber escolher aquilo que não queremos deixar de fazer.